Há uma dualidade dos fluxos de informação nas organizações. Os canais formais — o esqueleto estrutural de normas e hierarquias — interagem com os canais informais, que funcionam como a circulação sanguínea vital, carregando a subjetividade e a cultura dos colaboradores.
O canal formal opera com lentidão burocrática: um
comunicado oficial é redigido, revisado pelo jurídico, agendado para publicar na
intranet segunda-feira e envio de memorandos pelo RH. No entanto, na
sexta-feira anterior, o clima no escritório já mudou completamente.
Entre um café e outro, ou em grupos de WhatsApp, a notícia
já circula — muitas vezes distorcida por ansiedades ou elucubrando problemas que
a diretoria sequer cogitou. Enquanto o canal formal é o documento assinado, o
informal é a energia da organização em movimento. A liderança que ignora o informal
enquanto se preocupa com a precisão do formal está enxergando apenas metade do
processo de comunicação.
O que ensina a Psicologia Organizacional
A empresa pode ser comparada a um organismo vivo. Os canais
formais são o esqueleto: dão sustentação, forma e definem os limites de
movimento. Sem eles, a organização colapsaria em uma massa amorfa de dados
desconexos.
Nesta metáfora, os canais informais seriam os vasos da
circulação sanguínea: não seguem caminhos retilíneos ou hierárquicos; eles
irrigam as células onde a necessidade é imediata, transportando “oxigênio”, motivação, ou “toxinas” - boatos geradores de resistência. Tentar
proibir o fluxo informal é o mesmo que tentar estancar a circulação sanguínea para
controlar a pressão: o resultado é a necrose do engajamento e a paralisia da
organização.
Da Estrutura à Essência do Diálogo
A compreensão dessa dinâmica remete aos estudos clássicos de
Chester Barnard, que já na década de 1930 argumentava que a organização
informal é indispensável para o funcionamento da formal, por fornecer a coesão
necessária que as normas, por si só, não conseguem impor.
Conforme as contribuições de Margarida Kunsch, a comunicação
organizacional não é apenas um acessório de gestão, mas o elemento que
constitui a própria organização. O fluxo informal não é um defeito do sistema,
mas uma manifestação legítima da cultura e do clima interno. Ignorar a
informalidade é, em última análise, ignorar a pessoa que trabalha e suas
necessidades de interação.
A comunicação nas organizações contemporâneas é um processo
de construção de significados. Para Ivone Lourdes de Oliveira, o desafio
do gestor da comunicação — especialmente os técnicos de RH — não é controlar a informação para que ela não
saia dos trilhos, mas entender que a comunicação informal é o espaço onde a
subjetividade do colaborador se encontra com a estratégia da empresa. É nessa
rede invisível que os valores são testados, a liderança é legitimada e a
confiança é construída ou destruída.
A Intervenção Estratégica das Lideranças
Como transformar este fluxo, formal/informal, em comunicação
efetiva? As lideranças, não apenas do endomarketing, direção superior e RH, mas
de toda organização, não devem policiar a informalidade – que, ao final, seria
inútil – mas sim ser o seu cuidador.
- Mapeamento
de influenciadores: Identificar os nós da rede informal. Muitas
vezes, o colaborador que mais circula informações não possui cargo de
liderança, mas detém alta credibilidade social. Torná-los aliados.
- Sincronia
e transparência: Reduzir o hiato entre o fato (significado) e
o comunicado (significante). O boato nasce no vácuo da demora
formal. Se a estrutura oficial for lenta, a informal assumirá o
protagonismo da narrativa, muitas vezes negativamente.
- Humanizar
os canais oficiais: Utilizar a linguagem da verdade e sinceridade.
Quando o e-mail corporativo ou a intranet soam como uma conversa honesta e
empática, a necessidade de tradução ou especulação pelos corredores.
Para saber mais
- DONADIO,
Mário. Comunicar é a arte de arquitetar confiança. (Blog 2026) https://mariodonadio.blogspot.com/2026/03/comunicar-e-arte-de-arquitetar-confianca.html
- __________
Sete pecados da comunicação organizacional. (Blog 2026) https://mariodonadio.blogspot.com/2026/02/sete-pecados-da-comunicacao.html
- KUNSCH,
Margarida M. Krohling. Planejamento de Relações Públicas na
Comunicação Integrada (Summus, 2003). Obra clássica que redefine a comunicação
como um sistema integrado e estratégico, essencial para entender como os
fluxos formais e informais se cruzam na cultura corporativa e na imagem da
marca.
- OLIVEIRA,
Ivone de Lourdes; MARCHIORI, Marlene. Comunicação Estratégica nas
Organizações (Difusão, 2012). As autoras discutem a comunicação como
um processo de interação e produção de sentido, sendo fundamental para
psicólogos que buscam mediar conflitos entre o discurso institucional e a
percepção dos colaboradores.
Valeu Mário, mas estou com o viés da psicanálise, entra no jogo o inconsciente, os atos falhos, as projeções, os egos, o narcisismo, as repressões, as transferências, etc. Agora então com os algoritmos, onde as pessoas não convivem com o diferente e têm baixa disposição para ouvir e entender… Mas o texto está legal para o público a que se destina (recursos quase humanos dentro de estruturas).
ResponderExcluirOlá, meu querido amigo Marcelo! Que satisfação ler seu comentário e que saudade dos nossos papos com a Dodô fazendo apontamentos nas quartas-feiras do falecido grupo Dinosauros. Adorei a ironia dos “recursos quase humanos”.
ExcluirRespeito demais sua visão e concordo plenamente com a provocação. Trazer o inconsciente, os atos falhos e essa dinâmica do narcisismo para a mesa não é apenas um “viés”, é uma necessidade para entender o que está acontecendo hoje, especialmente nesse cenário de algoritmos que você mencionou, onde o “diferente” vira quase um ruído insuportável.
Receber esse seu feedback é uma honra e, honestamente, um baita estímulo para eu seguir estudando. Como você sabe, minha praia é a sociologia e a antropologia, e tenho buscado cada vez mais me enriquecer com minhas pesquisas na psicologia social para não deixar a análise ser tecnocrática e empresarial. Tenho muito o que aprender com a psicanálise para entender como essas estruturas que estudo ecoam (ou colidem) com o psiquismo.
Lembrando aqui de Erich Fromm, que já tentava essa ponte entre a sociologia e a psicanálise, ou até mesmo Zygmunt Bauman, quando discute como a identidade se torna um projeto de “autoexibição” nessas redes que você citou. Suas pontuações enriquecem demais o blog e me dão fôlego para as próximas reflexões. Muito obrigado pelo comentário e pelo olhar atento!