Os gestores de RH modernos orgulham-se de suas ferramentas
digitais e não se envergonham de esquecer que seu foco deveria ser pessoas, não
estatísticas. Implantam redes sociais corporativas abrangentes, canais de slack
ininterruptos e sistemas de feedback 360 graus em tempo real. Aproximam-se
de um sistema de vigilância digital e invasiva no qual a liderança é desumanizada
pelos algoritmos.
Escrevi alguns parágrafos usando o dialeto dos livrinhos de autoajuda sobre liderança e
falado nos congressos de RH. Desculpem! Vou traduzir em linguagem corrente logo
depois. Comecemos com o termo slack. É uma plataforma de comunicação
corporativa baseada em nuvem, projetada para substituir interações entre seres
vivos por encontros virtuais. Acredita-se que funcionaria como um sistema
operacional de informações, combinando mensagens em tempo real, compartilhamento
de arquivos e busca inteligente.
Neste modelo, a comunicação presencial entre as pessoas é um incômodo e,
nesta onda, o RH também quer se livrar de ambas; do presencial e das pessoas. Implanta
um sistema de People Analytics de última geração. O dashboard
prevê o turnover, mede o engajamento por termômetros semanais e mapeia a
produtividade por cliques.
Temos que traduzir tudo isso para a linguagem humana. People
Analytics é o filho digital da psicometria clássica que buscava medir
traços de personalidade ou aptidões mediante testes. Expande esta coleta para o rastro digital do
colaborador em metadados — organização de dados em categorias lógicas
que permitem avaliações. São pesquisados os e-mails, tempo de resposta em
chats, frequência de reuniões e padrões de navegação. Sim, o RH faz isso! Sem questionar a falta de ética em invadir privacidades.
Turnover, todo mundo sabe o que é: medir
a rotatividade. Não para fazer a empresa ser um bom lugar para trabalhar, porém para eliminar o custo para substituí-las. Dashboard — painel de controle — está cada vez
mais ocupando o papel dos executivos de RH. É um quadro, muitas vezes desenhado
como um infográfico, que centraliza informações críticas sobre indicadores de desempenho
e comportamentos. Resume dados complexos em mapas e tabelas, inventa evidências
e propõe decisões geradas por algoritmos.
Vigiar, punir, controlar, desumanizar
Fui chamado a uma empresa para conversar com os diretores sobre
problemas com o clima. Havia contradição entre o mostrado nos relatórios e a
realidade percebida. Os dashboards que me deram para estudar ilustravam as metas em colunas pintadas de verde, isto é: tudo bem. Entretanto,
os
recursos humanos estavam exaustos, sem compromisso, desmotivados; os
afastamentos dos executivos por burnout — síndrome de esgotamento
profissional — já afetavam os indicadores de resultados das vendas e das
margens financeiras.
Logo percebi
o problema: a gestão de RH havia se tornado polícia
e refém dos números, o significante; ignorava a realidade que os
geraram, o significado. Os seres humanos reduzidos a um perfil
informacional e a subjetividade — campo de domínio da psicologia organizacional
— foram embaçados pelas métricas e estatísticas. O volume de dados soterrara a informação
do sentido. Os gestores conheciam
os números, mas não as angústias, medos e ansiedades das pessoas. Havia uma cegueira
coletiva: os números mostravam o quê, porém só a liderança humana tem o poder de definir os sentimentos por trás deles, o porquê.
Em 1975, o filósofo Michael Foucault publicou o livro Vigiar e Punir
e usou como metáfora o panóptico: uma arquitetura das prisões de forma
circular que permitia aos carcereiros vigiar os prisioneiros sem que eles identificassem
por quem ou como. Imaginando-se observados — ainda que nem sempre estivessem de
fato — passavam a vigiar-se a si mesmos. Nas empresas contemporâneas, o RH
dispensa os capatazes da era pré-industrial. O algoritmo, por meio dos registros
das atividades nas redes sociais, tal como um panóptico digital, monitora
mais eficientemente os trabalhadores, especialmente aqueles em home office ou
uberizados.
Em 2022, outro filósofo, Byung-Chul Han, publicou o livro Infocracia:
Digitalização e a Crise da Democracia. O presídio de Foucault é transformado
no ecossistema corporativo gerenciado pelo RH. O regime disciplinar de ordens e
proibições é substituído pelo regime infocrático; a dominação ocorre de forma smart — inteligência da tecnologia — que estimula as pessoas a comunicar, postar,
preencher formulários de satisfação.
O processamento das informações é desenhado para gerar decisões rápidas,
imediatas, cumulativas e impessoais. O RH processa os indicadores dos
funcionários, desenha avatares inexistentes, como se não tivessem emoções,
sentimentos e vontades. Gestão de pessoas, entretanto, é necessariamente ponderada,
cuidadosa e exige presença e respeito à
privacidade. O controle irrestrito e a visibilidade total nas redes internas eliminam
o espaço do risco de inovar; a vulnerabilidade consequente destrói a segurança
psicológica; todos dão um jeitinho de enganar o sistema. Falta a dimensão
narrativa nas estatísticas; somente a intervenção humana e sensibilidade
psicológica dão sentido aos demonstrativos.
Humanizar a gestão de recursos humanos
·
Será preciso resgatar a humanidade afogada no mar
da tecnologia. Reduzir a dependência de pesquisas de clima automatizadas e promover
rodadas de conversa sem pauta rígida. A informação deve ser o ponto de partida,
não a sentença automática;
·
Combater o fetichismo do dashboard. Desconfiar das
métricas como dogmas indiscutíveis. Entender o que os números não estão mostrando
ou refletindo sobre a cultura da empresa. O que é mensurável nem sempre é o que
é importante;
·
A saúde organizacional não está exibida na massa
dos dados, está no vazio entre os constructos, aquilo que nem sempre é
percebido ou computado. O pensamento crítico e a criatividade devem ocupar o
lugar do processamento linear e reativo;
·
Substituir a enxurrada de
e-mails, grupos de WhatsApp e teleconferências por encontros presenciais que
priorizem o diálogo e não a massa de informações;
·
Não desprezar o People
Analytics, mas lembrar que não basta saber qual a porcentagem de pessoas
desmotivadas, porém entender o sentimento por trás deste número. O RH deve
ensinar os líderes como interpretar e devolver a humanidade à frieza do
dashboard;
·
Proteger o espaço subjetivo e privativo das
pessoas. Evitar a exposição desnecessária, preservando a segurança psicológica
saudável para o desempenho criativo, inovador e comprometido.
Para saber mais
Han, Byung-Chul. Infocracia: Digitalização e a crise da
democracia. Editora Vozes (2022). Entender
como o mau uso das informações destrói a vida comunitária e o pensamento
crítico.
Han, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Editora Vozes (2015).
Entender o burnout como subproduto da Infocracia.
Michel Foucault. Vigiar e
Punir: Nascimento da Prisão. Editora Vozes (1977). No capítulo O
Panoptismo analisa como esta estrutura se tornou a metáfora perfeita para a
sociedade moderna.


