SETE PECADOS DA COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL

Comunicação organizacional é mais do que  transmissão de dados, os signos: palavras, cartazes, decisões; a ideia que a direção da empresa quer que seja entendida. Não basta o cuidado com a forma, o significante, aquilo que os empregados veem, ouvem ou leem. As pessoas reagem ao significado, à interpretação, como entendem a mensagem. O desafio é garantir que o significante escolhido gere significados esperados pela organização.

A alta direção de uma empresa definiu em reuniões de planejamento estratégico seu plano de expansão: novos produtos, novas oportunidades para o pessoal, mais crescimento, melhores resultados. Elaborou planos de endomarketing para informar a  boa novidade aos empregados de todos os departamentos em todas as filiais. Cuidou de fixar em corredores, elevadores e refeitórios cartazes elaborados por agência de publicidade com experiência internacional. Ponto culminante foi uma convenção em um hotel fazenda com palestrantes motivacionais, distribuição de brindes e prêmios. O resultado foi um fracasso.

Apesar das boas intenções e  clareza aparente das informações, foram surpreendidos pela geração de um clima organizacional de apreensão, rumores e queda da produtividade. Colaboradores demonstraram resistência às novas ideias; proliferaram fofocas de chefias procurando agências de recolocação ou preparando currículos. A diretoria de RH e os líderes estavam perplexos: as informações foram comunicadas, mas o impacto desejado não foi alcançado. Onde erraram?

No início dos anos noventa, na Universidade de Montreal, Canadá, os pesquisadores James Taylor, François Cooren e Elizabeth Van Every propuseram uma inversão radical: a comunicação não acontece na organização; a organização é comunicação. Esta é a raiz da Escola de Montreal:  a Comunicação Organizacional não é uma via de mão única de transmissão, mas sim de co-construção, ou construção coletiva de significados. Neste processo, as pessoas dão sentido ao significante, situações ambíguas, complexas e inesperadas.

Comunicar é gerenciar significados

A Escola de Montreal oferece um farol teórico e prático, revelando como o sentido — significado — é construído. Lista razões dos erros e indica modos corretos de expor os fatos — significantes — para impulsionar o desempenho da organização e o engajamento das pessoas.

1 - Sensemaking subvertido. Ilusão de que fatos são apenas fatos. As pessoas atribuem significado aos eventos, situações e mudanças. O informado é um fato, mas as pessoas subvertem ao seu modo o sentido dos novos papéis, a incerteza sobre o seu futuro ou seu emprego. O sentido, as histórias e interpretações — ou as “narrativas”, como está na moda dizer — são baseadas em informações construídas a partir da subjetividade das interpretações.

2 - Comunicação como técnica de transmissão. Tratar a comunicação como se fosse apenas uma relação — como dizem os manuais — de transmissor>meio>receptor. Falta neste reducionismo o questionamento, o diálogo, fazer as mensagens circular para que as pessoas, elas mesmas, superem as barreiras do significado e construam a compreensão do que está sendo transmitido.

3 – Ignorar a ambiguidade. Toda comunicação tem em sua essência, por mais que se tente evitar, ambiguidade e incerteza. As informações são interpretadas coletivamente, há proliferação de entendimentos díspares, talvez negativos, que conflitam com a realidade subjetiva dos empregados.

4 - Despreparo das lideranças. Alguns chefes entendem que a comunicação é uma questão de clareza dos comandos e não de liderar os processos de criação de sentido. Não sabem como coordenar ações e alinhar significados, influenciar interpretações emergentes. Provocam uma desconexão entre o que a organização espera comunicar e a realidade percebida pelas pessoas.

5 - Ignorar os rituais de engajamento. A alta administração se limita a  impor decisões estratégicas, redigir normas, solicitar ao marketing que gere uma campanha e ao RH que promova treinamentos. A psicologia organizacional e a antropologia ensinam a importância dos eventos informais. Por exemplo: Kanban físico, reuniões diárias de 15 minutos diante do quadro de gestão à vista; reconhecer a importância dos encontros informais em torno da máquina de café; no chopinho das sextas-feiras e reuniões de confraternização. Nestes rituais, muitas vezes em cinco minutos são negociadas decisões que levariam semanas nos canais burocráticos.

6 - Participação insuficiente. Quanto mais complexa a necessidade de aceitação e compreensão, maior a ilusão de que as informações devem ser impostas de cima para baixo.  Para garantir a uniformidade das interpretações para lidar com as resistências, são criados controles rigorosos.  Entretanto, só a participação e envolvimento contribuem para a coesão organizacional e cultural.

7 - Meios e linguagem inadequados. Os canais de comunicação ordinários,  tais como e-mails, grupos de WhatsApp e plataformas de informática, são apenas recursos sofisticados substitutos do velho quadro de avisos. Piorados, agora, com as ferramentas da chamada Inteligência Artificial. Não permitem saber como as pessoas percebem a  consistência entre o que se pretende comunicar, a realidade da prática organizacional e o sentimento de relevância para os problemas cotidianos.

O que a Escola de Montreal ensina

As intervenções práticas devem focar na criação de um ecossistema de comunicação que atue como um verdadeiro arquiteto de sentido;

Workshops de Sensemaking para criar um espaço seguro para os colaboradores expressarem suas dúvidas, medos e percepções. O líder deve co-construir significados e transformar a ambiguidade em um campo para o diálogo produtivo;

Criar canais informais e multidirecionais promovendo  a negociação e construção de significados compartilhados, permitindo que as mensagens circulem de forma mais orgânica;

Treinar as chefias para atuarem como líderes de significados e não como comandantes de ordens.

PARA SABER MAIS

Um modelo do processo de comunicação organizacional na perspectiva da Escola de Montreal. Adriana Machado Casali. Capítulo 6 (páginas107 a 134). Volume 1 do livro Comunicação Organizacional de Maria M. Krohling  Kunsh. Editora Saraiva (2009).

A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL E O GOZO DA OBEDIÊNCIA


Baseada nas ideias Jacques Lacan, convida a compreender a comunicação e a questionar o papel que ela realmente desempenha. Mais do que informar, ela tem uma função mais insidiosa: a de instrumentar os aparelhos ideológicos da sociedade espelhados nas empresas para a captura da alma dos empregados para gozarem com a obediência.

Executivos de RH, líderes e gestores de alto escalão vivem um dilema cotidiano: como garantir que a comunicação interna seja eficaz, alinhando equipes, transmitindo a cultura da empresa e, claro, motivando o engajamento? A resposta vem embalada em manuais e cartilhas que prometem transparência total, mensagens claras e um alinhamento perfeito.

As estratégias para o assim chamado desenvolvimento da cultura e construção de um clima unificado e harmonioso, onde não haveria espaço para desavenças, escondem as fissuras e os conflitos que são inerentes a qualquer grupo humano. A comunicação torna-se ferramenta para impor esta falsa coesão. Para Lacan, o empregado não obedece apenas por medo ou dever moral, mas porque a obediência lhe oferece uma âncora libidinal. Ao seguir cegamente uma ordem, a pessoa livra-se da angústia de lidar com o próprio desejo.

O que se tenta esconder é o real, aquilo que é impossível de ser totalmente controlado ou simbolizado. Pense em uma grande reestruturação ou uma crise interna; a comunicação oficial tenta traduzir esses eventos em mensagens polidas e positivas. Lacan, relendo a dialética hegeliana, observa que o escravo encontra um gozo na sua submissão, pois esta lhe confere um lugar privilegiado no mundo do opressor, e se sente protegido do vazio de sua existência.

O mestre, o colaborador e a produção do gozo obediente

O que a análise lacaniana nos revela é que a comunicação corporativa se encaixa no que ele chamou de Discurso do Mestre. Os aparelhos ideológicos, liderados pelo marketing interno e operados pelas chefias, emitem coloridas mensagens de cooptação da visão, missão, políticas, incentivo aos objetivos e metas organizacionais; as avaliações de desempenho valorizam quem as incorpora como se fossem suas ou, no jargão empresarial: vestem a camisa...

A serviço dessa ordem, estão os manuais, as métricas e os procedimentos, formando um saber que serve ao poder. O colaborador — como a comunicação corporativa prefere denominar o empregado — é o elo frágil nessa cadeia. Sabe que para sobreviver precisa se conformar ao Discurso do Mestre, mesmo que sua vontade interna, sua insegurança ou sua angústia clame pelo contrário.

A intenção declarada seria a clarificação do significado; entretanto a mensagem nunca pertence apenas a quem a emite, seja o CEO ou o departamento de RH. Quando é liberada, ela se separa de seu autor e entra no universo de cada pessoa, onde será interpretada filtrada pelas experiências, traumas e desejos de cada um.

O que se prega nos seminários motivacionais para a eficácia comunicacional é, na verdade, uma estratégia de captura da mente, um convite à identificação com a marca, e não uma transmissão de conhecimento. Voltando para Lacan: o engajamento é uma forma de gozo, uma satisfação paradoxal extraída da própria obediência.

O controle do significado

As campanhas de empresa-família, os prêmios de melhor lugar para trabalhar são mecanismos para capturar o desejo do empregado. Não visam informar, mas sim extrair do empregado a última gota de sua vontade, fazendo com que ele ame sua própria servidão.

Diferente do senso comum, onde as palavras servem para rotular coisas ou ideias pré-existentes, Lacan afirma que o significante precede o significado. As palavras — feedback, cultura, comunicação, engajamento, liderança... — não têm um significado concreto, como definidas nos dicionários, elas valem pelo seu significante, como são interiorizadas pelo inconsciente dos receptores.

A comunicação organizacional é uma construção contínua de significantes. Seminários de pseudo integração, palestras de coaches motivacionais e livrinhos de autoajuda precisam ter a essência de sua doutrinação corrigida desde o vocabulário:

·       Feedback: não é uma troca transparente, mas um ritual carregado de angústia onde o empregado se vê objetificado pelas métricas da organização.

·       Cultura Organizacional é uma tentativa de criar um universo simbólico totalizante que esconde a realidade do conflito entre os objetivos organizacionais e desejos dos empregados.

·       Engajamento, vestir a camisa: é uma forma de gozo, uma estratégia da empresa para que o empregado, aceite e ache normal sua própria servidão.

Para saber mais

·       A voz da empresa, comunicação interna ou dominação ? Uma postagem anterior https://mariodonadio.blogspot.com/2025/09/ com cópia no Linkedin https://lnkd.in/dmZBMa_s  teve grande repercussão entre meus alunos de pós-graduação no Mackenzie e clientes da UniConsultores, inclusive de outros países. Recebeu muitos elogios e uma crítica: faltava trazer Lacan. Prometi pesquisar mais e escrever outro artigo. Aqui está! Sugiro que leiam também o texto anterior, é importante para se aprofundar no tema. Leia este texto também no Linkedin:

·       Psicodinâmica do Trabalho e Gestão: Uma Perspectiva Lacaniana: Diversos títulos e autores.  Vale a pena consultar teses e dissertações de grupos de pesquisa da USP ou UFRGS.  Há muitas referências sobre como a Comunicação Organizacional atua como um Discurso do Mestre e deixa de ser diálogo e é ferramenta que sustenta o gozo da obediência,

·       O Mal-estar na Organização: Christian Dunker e outros (Org. por S. Paulon e L. G. L. de Oliveira). Editora: Artmed / Escuta.

·       Organizações e Sociedade, Temas Críticos em Administração: Rafael Alcadipani. Editora: Thomson Learning / Cengage.


A VOZ DA EMPRESA, COMUNICAÇÃO INTERNA OU DOMINAÇÃO ?



O termo comunicação é sempre lembrado cada vez que as pesquisas de clima descrevem os problemas de uma empresa. É o que escuto nas primeiras reuniões para identificação das demandas para um programa de desenvolvimento de lideranças ou alinhamento estratégico. Falta de compromisso, engajamento, conhecimento e, em consequência, baixa produtividade, seriam corrigidos com uma boa comunicação interna. O desejo oculto na frase é mais controle, não mais informação.

A comunicação interna não é um mero canal de mensagens; é um campo de batalha, um instrumento de poder sutil, uma máquina de engenharia social que molda a cultura da empresa e a própria identidade dos empregados, chamados de colaboradores por quem quer ser visto como politicamente correto. O que acontecerá se o colaborador não quiser colaborar?

Para entender o que realmente se passa, e não se contentar com a patacoada dos livrinhos de autoajuda e dos autodenominados, coach de resultados — seja lá o que for isso… — é preciso recorrer a pesquisadores sérios. A Psicologia Social estuda a comunicação organizacional como uma das ferramentas nas relações com os trabalhadores.

O que dizem os gurus

O primeiro da lista é Antonio Gramsci. Ele nos explica o que se esconde sob o manto da comunicação. Ela é a principal artífice da hegemonia, essa técnica sofisticada de obter consentimento sem usar a força bruta. Quando a empresa repete, nos congressos e nas plaquinhas dos corredores, frases motivacionais sobre a importância de “vestir a camisa”, ou de se ver como pertencendo a uma “família”, ela não está somente informando. Está persuadindo, construindo uma narrativa para convencer o empregado de que os interesses da empresa são os seus próprios. Não há poder mais sólido do que aquele que se sustenta não pela coerção, mas pelo consentimento “voluntário”, uma adesão fabricada.

Essa máquina ideológica se encaixa na teoria de Louis Althusser. Se o Estado tem seus aparelhos repressivos — a polícia, o exército —, a empresa, através de seus departamentos de Recursos Humanos, atua exatamente como os Aparelhos Ideológicos de Estado. Por meio de manuais de conduta, treinamentos de soft skills — outra expressão contaminada ideologicamente — a corporação molda a pessoa, formata sua identidade para que se alinhe com seus objetivos estratégicos e comportamentos que chama de engajados. O empregado é, na prática, um ser capturado, um boneco cujos cordéis são puxados por uma ideologia que lhe é alheia, mas que ele, por um truque de mágica, internaliza como sua.

Pierre Bourdieu denuncia o jogo de poder que se estabelece nas organizações. A empresa é uma arena onde se luta por prestígio e reconhecimento. E a comunicação, nesse tabuleiro, é uma arma.  Enquanto os gerentes e supervisores trabalham na motivação — outro termo contaminado — dos empregados, a maioria do tempo e energia dos altos dirigentes e investido na conquista ou na manutenção de seu cargo e poder. Possibilita construir o capital simbólico da organização, um capital de prestígio e autoridade. Ao premiar um certo tipo de habitus — um conjunto de comportamentos e gostos que interessa ao poder —, ela legitima hierarquias e faz com que a desigualdade pareça algo natural, uma recompensa para a conformidade.

O que Adorno e Horkheimer, os titãs da Escola de Frankfurt, disseram sobre a indústria cultural se aplica perfeitamente à comunicação corporativa.  A repetição massiva de mensagens padronizadas e a tentativa de homogeneizar o pensamento e o comportamento dos colaboradores é uma versão em miniatura da manipulação da sociedade. O empregado, desestimulado a ter pensamento crítico, é tratado como um mero consumidor de conteúdo empresarial, um zumbi que aceita passivamente a cartilha que lhe é imposta.

Temos agora Thomas Piketty, o economista que expôs a brutalidade da desigualdade. Enquanto o salário de uns definha, os bônus dos executivos disparam a uma velocidade espantosa. A comunicação entra em cena para justificar o injustificável. Ela reforça a ideologia de “mérito”, convencendo as pessoas de que o sucesso é uma recompensa natural para o “trabalho duro”, ocultando a desigualdade estrutural. A comunicação, assim, se torna um instrumento para manter a disciplina e conformidade, para convencer o empregado a aceitar uma realidade que não o beneficia.

Emenda, mas não errata :-). A citação sobre a diferença salarial entre os altos executivos e os empregados provocou polêmica entre os leitores e muitos comentários no meu e-mail e na cópia do artigo no Linkedin. Entretanto, as críticas ao Piketty embaçam a essência do seu pensamento. Não é uma questão de “salários e benefícios”, muito menos de “avaliação de desempenho”. Desde os anos setenta/oitenta convivemos com a doença ética do neofordismo e empreendedorismo. A desigualdade de renda e riqueza é obscena e os órgãos de comunicação são “aparelhos ideológicos” que reproduzem na empresa esta ideologia. Uma leitora reclamou que eu teria esquecido de Lacan. Não esqueci, é que o viés do artigo era a Psicologia Social; porém, a Psicanálise talvez explique alguns comentários irados: a aceitação do “discurso do mestre” poderia provocar a aceitação de ser dominado e o “gozo da obediência”.

O desafio de quem busca a melhoria da comunicação não é somente medir engajamento e buscar compromisso e compreensão; é questionar permanentemente seu papel.  Está realmente a serviço das pessoas ou aperfeiçoando o mecanismo de controle? O que está em jogo é a liberdade e a dignidade do trabalhador.

Para saber mais:

Estes livros podem ser encontrados com uma breve busca nos sites de pesquisa da internet. Seus preços variam conforme a livraria, editora, etc. Há resenhas ótimas na Wikipedia. 

·       Hegemonia, cultura e política - Antonio Gramsci

·       Aparelhos Ideológicos de Estado - Louis Althusser

·       A Distinção: Crítica Social do Julgamento - Pierre Bourdieu

·       Indústria Cultural - Theodor W. Adorno e Max Horkheimer

 O Capital no Século XXI - Thomas Piketty