O significado da mensagem não é o que o emissor diz, é o que o receptor entende. Se o colaborador ou cliente não compreenderem o porquê da informação, houve apenas uma notícia cega. A correta comunicação organizacional é aquela capaz de reduzir os naturais vieses de percepção e filtros dos interesses nas relações institucionais e interpessoais. Liderar sem dialogar suprime o compromisso; sem compromisso, a empresa é apenas um aglomerado de pessoas trabalhando sob o mesmo teto.
A diretoria de uma grande empresa decidiu implementar um
novo software de gestão integrada para otimizar a produtividade. O anúncio
oficial foi feito via e-mail corporativo, com linguagem ufanista e metas otimistas.
No entanto, os supervisores de linha e seus subordinados — que não foram
consultados — sentiram que a ferramenta era uma artimanha para mais vigilância
e controle.
A mensagem sofreu um filtro de percepção: o que a empresa
chamava de eficiência, o chão de fábrica lia como ameaça. Em
semanas, a distorção da mensagem, via “rádio
corredor”, desnaturou o que parecia
ser um bom projeto em um foco de resistência. Meses de investimento resultara
em um clima tóxico, conflito entre chefias e subordinados e perplexidade dos clientes.
Valores subjetivos e resultados objetivos
O fluxo de informações em uma empresa é como o sistema
nervoso de um organismo. Quando as sinapses falham, as mensagens chegam
distorcidas pelos filtros burocráticos e o corpo entra em colapso,
independentemente da competência individual de cada membro. A eficácia de uma gestão ( Gaudêncio Torquato)
reside na capacidade de transformar o fluxo informativo em um elo de coesão
cultural no qual a transparência e a escuta ativa minimizam os jogos de poder e
as falhas na delegação.
Fracassos na comunicação institucional não são erros
técnicos, são sintomas da cultura fragmentada. Ao priorizar o diálogo franco, a organização não apenas protege sua reputação
externa, mas edifica internamente um capital humano motivado e alinhado aos
seus propósitos.
A comunicação institucional só se torna efetiva quando consegue alinhar os
valores subjetivos das pessoas aos objetivos estratégicos da organização
(Margarida Kunsch). A empresa que não dialoga, silencia; e o silêncio
corporativo é o prelúdio da obsolescência. Liderar sem transparência é um
convite à irresponsabilidade coletiva. Quando o colaborador não compreende o porquê,
ele se desvincula do resultado.
Quando a liderança emite uma mensagem sem o diálogo, desconhece
a dimensão psicossocial do trabalho. O prejuízo por uma mensagem mal
compreendida não onera apenas o clima organizacional: custa horas de
retrabalho, fuga de talentos que não se sentem pertencentes, e decisões
estratégicas baseadas em dados distorcidos por filtros de interesse.
A transparência e o diálogo não são benevolências das chefias;
são os pilares da engenharia social, delegação eficiente e tomada de decisão colaborativa. Sem
confiança, a liderança é apenas exercício de autoridade sem efetividade nos
resultados. Investir na qualidade das trocas interpessoais é o caminho mais
seguro para garantir a sustentabilidade corporativa e o engajamento.
Nada substitui o presencial, mas o virtual existe
Nada substitui o contato pessoal, a subjetividade faz parte da mensagem. Entretanto, nestes tempos de contatos virtuais — e-mails, WhatsApp, reuniões remotas
— é preciso, mesmo assim, assegurar que o sentido seja compartilhado. Olho no olho, sentimentos,
expressões corporais e faciais são tão importantes quanto o rigor técnico do texto objetivo na comunicação e desobstrução dos canais onde
a mensagem se corrompe.
· O Filtro de Interesse: O receptor interpreta a mensagem com base no que ele tem a ganhar ou perder, não no objetivo planejado pela informação;
A Distorção por Silenciamento: Em ambientes de baixa confiança, os filtros de hierarquia impedem que as “más notícias” subam, criando uma bolha de otimismo falso no topo;
O Viés de Percepção: O colaborador não entende a mensagem conforme o emissor disse, mas conforme a sua experiência prévia com aquela liderança ensinou.
As lideranças das empresas, especialmente o RH, podem ter papel expressivo na desobstrução dos canais e filtros.
·
Encontros de feedback reverso
Nestes encontros, a liderança não fala, apenas ouve como a
mensagem foi interpretada – significante - pelos colaboradores.
·
Transparência radical do significado
Cada nova diretriz deve ser
precedida de avaliação dos impactos no
psicossocial - clima, cultura, motivação,
comportamentos - não apenas justificada pelas
melhorias dos indicadores numéricos dos resultados contábeis
·
Treinamentos em escuta ativa para líderes
Um bom líder não escuta para
responder; ele escuta para compreender o contexto antes de agir. Sugestão de temas:
Suspensão do julgamento e ruído interno.
Corrigir a maior barreira da escuta ativa. Enquanto o colaborador fala, o líder
geralmente está preparando a resposta, julgando o erro ou buscando uma solução
imediata, perdendo as nuances emocionais
e a causa raiz das questões trazidas pela equipe. Assim, o líder ouve apenas
para consertar o problema e garantir que suas ordens sejam cumpridas.
Empatia e validação. Validar
o sentimento do colaborador não é concordar sempre com a opinião dele; interesses
devem ser negociados; diálogo franco aumenta a segurança psicológica da equipe.
Para saber mais
Gaudêncio Torquato: Tratado de Comunicação
Organizacional e Política. Editora Summus (2015). “A dimensão psicossocial
da comunicação organizacional; transparência e diálogo fortalecem a identidade corporativa, um ambiente de confiança, sentimento de
pertencimento, contribui para a melhoria da produtividade;
Mário Donadio: Sete Pecados na Comunicação Organizacional (2026) https://mariodonadio.blogspot.com/2026/02/sete-pecados-da-comunicacao.html.
Não basta o cuidado com a forma, o significante, aquilo que os empregados veem, ouvem ou leem. As pessoas reagem ao significado, à interpretação, como entendem a mensagem. O desafio é garantir que o significante escolhido gere significados esperados pela organização.
Margarida Kunsch (Org.) Gestão da Comunicação Organizacional: Estratégias, Processos e Dinâmicas. Editora Atlas (2017). “O diálogo e a transparência nos processos comunicativos internos não apenas facilitam a gestão, mas são os pilares que sustentam o sentimento de pertencimento do colaborador, transformando o ambiente de trabalho em um espaço de confiança mútua e colaboração”.
Gosto muito das suas postagens, sigo o senhor no LinkedIn, mas prefiro ler no blog. O que o senhor acha de usar o filme O Agente Secreto para os alunos de graduação estudarem na disciplina COMUNICAÇÃO onde eu leciono? Eles são tipo pobre de direita. O senhor pode acorda-los.
ResponderExcluirOlá, Patrícia. Eu também prefiro o blog, acho o LinkedIn um pouco congestionado. Dobre usar o filme como estímulo a alunos de graduação ( talvez na faixa dos 20 anos) acho arriscado por ser complicado dar sentido pedagógico. Mas o desafio é grande. Vou estudar. Se tomarmos "agente" , nao clmo profissão, mas como "aquele age" podemos dizer que quem dirige a comunicação é a "mão livre, ou secreta do mercado". Vale pensar! Muito obrigado.
ExcluirBoa tarde. Parabéns pela sua nova série de artigos sobre comunicação. Estou gostando se sua nova linha com força na psicologia Organizacional. Sugiro um artigo sobre CNV. Não vejo muita diferença do que o senhor falava nas monitoria da FDC sobre técnicas de feedback. Parabéns e obrigado
ResponderExcluirOlá. Paulo. Você tem razão, mas comunicar é assim mesmo. De fato Comunicação Não Violenta é uma marca nova, comercialmente interessante, sobre os velhos estudos do Comportamentalismo (anos oitenta/noventa) de boas técnicas de feedback. Mas não vejo problema, o que importa são os resultados. Está "no forno" e em algumas semanas vou publicar um blog sobre CNV. Muito obrigado.
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