A comunicação organizacional é o arcabouço onde se mesclam a estratégia e a cultura. Entender esta dinâmica exige navegar entre dois polos distintos: a Tradição Norte-Americana, focada na precisão da informação e eficiência produtiva, e a Tradição Europeia, que prioriza o tecido social, o simbolismo e o bem-estar humano.
Entrevistei o presidente, alguns gerentes e lideranças. Eles
entendiam que a raiz dos problemas de comunicação era o conflito das abordagens
de dois importantes diretores executivos e incompreensão sobre as propostas da
gestora de recursos humanos. Era preciso que houvesse integração e harmonia
entre as visões dos diretores e as estratégias e práticas na comunicação com os
clientes e colaboradores.
Um dos diretores, chamado de Gringo, estudara em importante
universidade de Chicago, deu para eu ler um pacote de gráficos e tabelas. Sua
frase típica era: “O que não pode ser medido, não pode ser gerido”.
Outro diretor, apelidado de Paizão e querido pelos
colaboradores, estudara em famosa escola de negócios na Suíça. Argumentava que: “Metas são apenas números que
medem, mas não produzem resultados; o melhor desempenho decorre do respeito à
dignidade do trabalhador e do seu bem-estar”.
Minha interlocutora, conhecida na empresa como a Menina do RH, era especialista em Psicologia Organizacional.
Estudara em respeitada universidade
brasileira. O presidente lhe dera uma ordem clara: “Esprema o consultor para
que resolva o conflito entre o Gringo e o Paizão e oriente você
para, em sessenta dias, me apresentar um plano de melhoria da comunicação da
empresa.”
Embate teórico entre o mecanicismo e o humanismo
O diretor Gringo entendia que a comunicação serve para o controle dos resultados. Achava que os
problemas seriam solucionados focando a redução de incertezas, em processos bem descritos e relações públicas
voltadas à imagem institucional. Promovia
pesquisas para identificar e quantificar
a qualidade da comunicação interna, para ele, causa da perda da lucratividade.
A Tradição Norte Americana
é herdeira do Taylorismo e das teorias clássicas de administração. Recentemente
incorporou as técnicas Toyotistas e do Neofordismo. A comunicação é uma ferramenta desenhada com
foco no quê e no como: clareza das metas, gráficos e tabelas — dashboards — gestão à vista. Enxerga a administração como uma máquina e a comunicação
um lubrificante que reduz o atrito técnico e garante a rapidez com que os colaboradores adotam novos
padrões de produtividade. Se o colaborador entender e cumprir a meta, a
comunicação será eficaz.
O diretor Paizão defendia que o diálogo não era um
meio para alcançar metas, mas a própria essência da organização. Os
colaboradores são protagonistas, sujeitos e objetos da construção da
responsabilidade social. Promovia pesquisas qualitativas centradas na avaliação
da cultura e humanização da liderança.
Na Tradição Europeia a comunicação é vista como um fenômeno psicossocial. Inspirada pela fenomenologia, suas raízes estão em Max Weber e sua análise da burocracia e ação social inspirada na fenomenologia. Críticos, influenciados por Michael Foucault, alertam para não ser uma construção subjetiva instrumentada pelas narrativas dos detentores de poder.
Crítica à caricatura acadêmica
Categorizar geograficamente — Norte-Americana/Europeia —
é uma caricatura acadêmica que ignora a globalização das comunicações
organizacionais. A tradição Norte-Americana é, de fato, funcionalista, mas também se utiliza de
técnicas subjetivas para criar adesões às suas iniciativas.
Ferramentas intensivamente utilizadas nas empresas
contemporâneas, tais como Lean Manufacturing (reduzir desperdícios e
aumentar a produtividade) ou Agile (entregas rápidas, flexibilidade, colaboração), são transnacionais. Separá-las por geografia ignora que a lógica do capital é
a mesma em ambos os continentes. A classificação é reducionista ao definir a cultura
europeia como se fosse ética e humana, enquanto a americana seria fria e
calculista.
Na realidade das empresas, seja qual for sua sede, a
comunicação não está vinculada à ideologia humanista, mas sim ao interesse das
estratégias empresariais. Mesmo quando há um discurso de qualidade de vida no
trabalho e gestão participativa — visão europeia — o objetivo sempre será a
captura da subjetividade do colaborador.
O algoritmo é o grande chefe invisível e onipresente para utilizar
a comunicação para maximizar resultados operacionais — vendas, lucros, retorno
sobre o investimento — sem necessidade do envolvimento presencial de
supervisores físicos. A má comunicação é apenas um dos aspectos
visíveis da precarização do trabalho.
A uberização representa o ápice da síntese perversa entre o pragmatismo norte-americano e a
captura da subjetividade europeia. O trabalhador é iludido com a fantasia de
ser um empreendedor individual. A comunicação organizacional das operadoras de plataformas digitais serve
para transformar o controle heterônimo em autocontrole. Utiliza elementos
simbólicos e subjetivos — distintivos, títulos pomposos, quadros de progresso e
gameficação – para mascarar a exploração como se fosse um jogo. A comunicação
organizacional torna-se o capataz das equipes, operando no nível do desejo e
necessidade imediata para maximizar a produtividade.
Propostas para a Menina do RH
A tradição norte-americana dá às ferramentas precisão e
eficácia; a europeia, o sentido, diálogo e subjetividade. Cabe ao psicólogo
organizacional, seja ou não gestor de recursos humanos, atuar como um arquiteto
crítico capaz de utilizar os recursos da tecnologia para a eficiência, sem
permitir que a comunicação se torne um aparato ideológico para a captura da
mente e alma dos trabalhadores.
·
A comunicação deve integrar as ferramentas da
tradição norte-americana à ética na relação com os trabalhadores. Informações radicalmente
honestas sobre como serão utilizadas para as atribuições das atividades e
avaliações de desempenho. Criar espaços de discussão livres para tratamento e
busca participativa da solução dos problemas;
·
Considerar que conflitos são naturais, bem como
as divergências de interesses do trabalhador e da empresa. A boa comunicação não é a que impõe um
consenso cooptado — tradição europeia — mas a que permite ao colaborador ter voz ativa
respeitada sobre seu processo e
condições de trabalho;
·
Integrar metas de produtividade — tradição
norte-americana — com indicadores sobre a psicodinâmica do trabalho — tradição
europeia — tratando os desvios motivacionais e de desempenho não como falhas individuais e censuráveis, mas
como sinais de problemas de comunicação a serem equacionados e solucionados.
Para saber mais
José Carlos Zanelli: Psicologia, Organizações e
Trabalho, Editora Artmed (2014) Bases para o diagnóstico da Psicologia
Organizacional e do Trabalho.
Ricardo Antunes: Os Sentidos do Trabalho, Editora Boitempo (2009). Como as novas formas
de trabalho e o discurso da flexibilidade impactam a identidade e a dignidade
do trabalhador.
Roberto Putman: O Capital Social, Editora Paz
e Terra (2006). Para entender a tradição europeia/social. Discute como a
confiança e redes de relacionamento são o motor da eficiência coletiva.

Grata Mário por mais esta reflexão.
ResponderExcluirQue “as meninas de RH” assimilem os passos do melhor caminho.
As empresas ocupam um espaço importantíssimo no desenvolvimento das pessoas. O que os funcionários aprendem no exercício do papel profissional influencia seu papel como cidadão.
Olá, "anonimo" :-) Obrigado pelo comentário. Desde o amo passado assumi uma nova disciplina na Pós-Graduação do Mackenzie, COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL. As turmas são excelentes e me estimulam a estas reflexões a partir das "rodas de conversa" feitas durante as aulas. Uma curiosidade: as alunas (profissionais estabilizadas, com muita experiência e ótima formação) são conhecidas nas empresas onde trabalham de "a menina do RH", o que, no mínimo, mostra um certo preconceito... Obrigado de novo.
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