LIDERAR AS ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL

 


Peter Drucker, em uma definição clássica, sentenciou: “Liderar é a arte de produzir resultados através de pessoas.”  Para tanto, o líder tem que se comunicar com as pessoas! Nestes nossos tempos de Internet, e-mails, WhatsApp e reuniões virtuais, a falha de transmissão das mensagens é o mais perverso dreno de produtividade nas organizações. Queiramos ou não, seja qual for o meio, sempre haverá um resultado a alcançar, uma pessoa transmitindo uma informação e outra pessoa recebendo.

O Capitão e o horizonte Invisível

A comunicação organizacional não é simples: é condicionada à cultura, ambiente dos negócios, motivação das pessoas e condições do mercado.  São ruídos que dificultam o alinhamento das percepções, humanização das interações, maturidade técnica e comportamental dos liderados para dar e receber feedbacks. O líder é um capitão de navio pilotando em um mar revolto. Sabe seu porto, mas não basta; precisa se comunicar com sua tripulação para chegarem ao seu destino.

Sinais de tempestade apareciam no horizonte. No comando do veleiro, o capitão sentia o peso do silêncio, interrompido apenas pelo estrondo rítmico das ondas contra o casco. Ele sabia exatamente qual era sua rota e qual era seu porto, já vencera muitas tempestades, e que dependia da competência da tripulação para chegar lá.

Da ponte, observava sua equipe, as variáveis ocultas da cultura e expectativas únicas das pessoas eram mais densas do que o nevoeiro, compunham nuvens de competências e temores, desde o contramestre experiente ao jovem marujo contemplando com medo o mar revolto.

O experiente capitão sabia que a comunicação não poderia ser um monólogo; desceu ao convés, entendendo que a eficácia de suas ordens dependia inteiramente de adaptá-las ao nível de prontidão de cada pessoa: instrução direta para quem clama por direção; delegação para quem já domina o ofício.

— “Ajustem as velas!” — disse ele, porém notou que para alguns o medo distorcia a percepção. Antes da técnica, ele precisou conectar-se às necessidades humanas, superando o receio da equipe, para que o canal de comunicação fosse desobstruído pela empatia.

O capitão sabia que o vulto inofensivo no horizonte era interpretado pelo marinheiro como um rochedo fatal, pois a mensagem recebida é sempre filtrada pela lente subjetiva de quem observa.  Não buscou apenas ser ouvido, porém certificar-se de que a realidade dos obstáculos na rota era compartilhada por todos.

À medida que o barco singrava, cada erro de manobra não era punido, mas convertido em um ajuste de curso imediato. O feedback sobre o desempenho não era uma crítica pessoal, mas aprendizado para o desenvolvimento técnico e comportamental da tripulação.

A arte de navegar e liderar pessoas

Para alcançar resultados, o ativo mais valioso de uma organização não é somente sua infraestrutura, mas a capacidade de seus líderes, por meio da comunicação,  em converter ruído em clareza. Liderar é como navegar sob neblina: os mapas de ontem pouco dizem sobre os obstáculos de amanhã. O sucesso dessa travessia depende de cinco vigas fundamentais que unem o comando e a execução.

1. A Liderança não tem um tamanho único (Hersey & Blanchard)

A primeira lição do navegador eficaz é que o navio não é operado por uma massa uniforme, mas por pessoas em diferentes estágios de maturidade. Medir o veterano e o novato com os mesmos padrões não é justiça, é ineficiência. A autoridade deve ser flexível, adaptando-se à competência e ao empenho de cada colaborador para a autonomia florescer onde há preparo, e a diretriz clara impere onde há dúvida.

2. O Filtro invisível da percepção  (Brunswik)

Um líder transmite o que acredita ser óbvio, entretanto a equipe recebe o que seus próprios sensores entendem. Entre o comando do capitão e a ação do marujo, existe uma lente subjetiva. O que para o líder é um desafio estimulante, para o liderado pode parecer um risco catastrófico. A mensagem enviada nunca é a mensagem recebida; é preciso ajustar constantemente as lentes para que a visão do oceano, do porto e da rota sejam compartilhadas.

3. A empatia como ferramenta da comunicação (Marshall Rosenberg)

Engana-se quem vê a sensibilidade como fraqueza no ambiente corporativo. Em mares revoltos, o medo e a frustração são ruídos que bloqueiam a produtividade. O líder que ignora as necessidades e sentimentos de sua tripulação está, na verdade, operando com a bússola quebrada. Conectar-se à humanidade do outro não é um exercício de benevolência, mas uma estratégia para garantir que a ordem técnica seja ouvida e executada sem distorções emocionais.

4. O ciclo do aprendizado contínuo (Stone & Heen)

A navegação de excelência não é isenta de erros, mas há técnicas para corrigi-los. Cada manobra equivocada e cada desvio de rota devem ser convertidos em dados para o próximo movimento. Isso exige uma cultura onde o retorno — o feedback — seja visto não como uma punição, mas como uma ferramenta de ajuste fino. A capacidade de uma equipe aprender com suas próprias falhas e aceitar críticas construtivas é o que separa as organizações que afundam na primeira tempestade daquelas que saem dela mais fortes.

5. Pessoas produzem resultados (Drucker)

O líder que domina esses referenciais não apenas sobrevive à neblina; ele aprende a ver através dela, conduzindo pessoas, recursos e propósitos ao destino com a precisão que só a boa comunicação permite.

Converter os conceitos de navegação em hábitos diários

Ao delegar uma nova tarefa, em vez de dar a mesma instrução para todos, avalie individualmente quem a recebe. Para um colaborador experiente, defina o objetivo final e dê autonomia; para um novato, detalhe o como e estabeleça pontos de checagem diários. O foco é a adequação da ordem ao nível de competência.

Ao solucionar problemas organizacionais, por exemplo, quando os resultados estão abaixo do esperado e a neblina da incerteza gera tensão na equipe, comece descrevendo os fatos observados sem julgamentos. Expresse objetivamente qual é o problema e pergunte como a equipe se sente, ouça  as pessoas sobre qual solução dariam. Isto remove comportamentos defensivos e abre espaço para a solução de problemas.

Ao alinhar expectativas, evite que o vulto na neblina seja interpretado de formas diferentes por cada membro. Após explicar uma diretriz, peça para o colaborador repetir com suas próprias palavras o que entendeu: “Para garantir que estamos na mesma página, como você resumiria as prioridades deste projeto?”. Isto corrige as distorções da lente individual antes que o trabalho comece.

 Ao oferecer feedback de desempenho, transforme a reunião de avaliação em um momento de aprendizado, não de punição. Separe o quem de  o quê. Foque no comportamento específico e no impacto que ele gera, em vez de rotular a personalidade do liderado. Convide o colaborador a analisar o próprio erro e propor o ajuste de rota, transformando a crítica em um plano de desenvolvimento.

Na gestão do clima organizacional, o líder deve ser o guardião da cultura por meio da presença junto à equipe. Saia da cabine de comando e circule entre a tripulação. Ouça os ruídos do vento  — também chamado de “rádio-peão” — para identificar insatisfações antes que elas se tornem tempestades.

Resumo da ópera

A eficácia da liderança na comunicação não reside no poder do comando, mas na capacidade de transformar a intenção em um resultado compreendido e executado por outros. Ao navegar, o líder deve agir como o tradutor da realidade, adaptando sua voz à maturidade da equipe (Hersey & Blanchard), desobstruindo os canais de comunicação por meio da empatia (Rosenberg), alinhando as percepções distorcidas pela lente individual (Brunswik) e convertendo cada desvio em um degrau de aprendizado contínuo (Stone & Heen). O líder é quem dá sentido e utilidade ao esforço humano (Drucker). Em um mundo coberto por neblina, a clareza da comunicação não é apenas uma competência gerencial — é a bússola capaz de conduzir tripulação, navio e propósito em segurança até o porto do destino.

Para saber mais

Comentários, críticas ou pedidos para esclarecer dúvidas são muito bem-vindos.
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Muito obrigado!

·         DRUCKER, Peter F. O melhor de Peter Drucker: a administração. Tradução de Maria Lúcia Leite Rosa. São Paulo: Nobel, 2002.

A liderança não é  um dom, mas um conjunto de práticas que permite converter o esforço humano em resultados tangíveis. Drucker revolucionou o pensamento gerencial ao tirar o foco do comando e controle e colocá-lo na contribuição: um líder  aloca recursos — sendo o recurso humano o mais valioso — para atingir um objetivo comum.

·         HERSEY, Paul; BLANCHARD, Kenneth H. Psicologia para administradores: a teoria e as técnicas da liderança situacional. São Paulo: EPU, 1986.

Liderança Situacional é um modelo seminal que introduz o conceito de que não existe um estilo de liderança único e ideal. Os autores exploram como a maturidade do liderado, em termos de competência e empenho, dita o equilíbrio das ações do líder entre o apoio e a direção. É uma leitura indispensável para executivos de RH que buscam fundamentar programas de desenvolvimento de gestores em dados comportamentais.

·         ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. 4. ed. São Paulo: Ágora, 2006.

Comunicação Não Violenta. Método prático para substituir padrões de defesa e agressão por uma escuta empática e observações claras. O livro foca na distinção entre julgamentos e fatos, ensinando o líder a identificar necessidades universais por trás de comportamentos conflituosos, promovendo uma cultura de colaboração genuína.

·         SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da psicologia moderna. 11. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2019. (Capítulos sobre Psicologia Cognitiva e Escola Funcionalista).

As obras específicas de EGON BRUNSWIK sobre a psicologia da percepção são raras em tradução direta para o português. Este livro de Schultz & Schultz é uma boa fonte para entender o contexto do funcionalismo e o Modelo de Lente. A obra explica como a percepção humana é probabilística e como os indivíduos utilizam pistas do ambiente para formar juízos, base essencial para a comunicação. Enquanto a psicologia de sua época focava no estímulo isolado, ele estava interessado em como o organismo sobrevive e se adapta a um ambiente complexo e incerto. Influenciou como estudamos a tomada de decisão humana: o erro humano muitas vezes não é falta de lógica, mas uma falha em ajustar nossa lente às propriedades do ambiente em que estamos inseridos.

·         STONE, Douglas; HEEN, Sheila. Obrigado pelo feedback: a ciência e a arte de receber bem o retorno de chefes, colegas, familiares e amigos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

Ao contrário da maioria dos livros que ensinam a dar feedback, este foca na dinâmica de quem recebe o feedback e por que o interpretamos como ataques. Enfatiza as necessidades de reconhecimento e aprendizado, sendo vital para o RH que deseja criar uma cultura de feedback sustentável.

LINKEDIN:

https://www.linkedin.com/pulse/liderar-estrategias-de-comunicacao-organizacional-mario-donadio-eqebf




8 comentários:

  1. Fernando Antônio Pires16 de abril de 2026 às 15:20

    Senhor professor Dr. Mário, leciono Gestão de Talentos em disciplina do Terceiro Grau no Oeste do Paraná. Uso seus livros nas minhas aulas por sua excelência em explicar de forma didática e motivadora sem perder o rigor conceitual. Este seu último artigo consegue superar todos os demais e fez sucesso entre os meninos. Eles têm muita vontade de conhecê-lo. A verba da faculdade é curta e sabemos do seu valor. Daria para negociarmos sua vinda para cá? Compensaremos com muito carinho. Muito obrigado e, em nome dos alunos, peço desculpas pela ousadia. Saudações universitárias.

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    1. Caro Fernando, de maneira nenhuma se trata de ousadia, agradeço seus comentários. Para atender aos “seus meninos” podemos conversar privadamente. Por favor, mande seu e-mail para donadio.uniconsultores@gmail.com Só para adiantar, algumas informações: a UniConsultores tem vários clientes no Oeste do Paraná, os honorários não poderão ser muito diferentes dos valores padrão. Caso o evento seja público, promovido sem fins lucrativos e por uma taxa simbólica para cobrir passagens e hospedagem, temos programas sociais com descontos bem significativos. Vamos conversar?

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  2. Querido Mario, meu adorável professor.
    Tentei compartilhar meu comentário mas minha inabilidade me impediu.

    Cada parágrafo lido aguçava minha vontade de continuar descobrindo o que viria na sequência.
    A metáfora usada enriqueceu sua descrição sobre temas já conhecidos.
    Gostei muito! Parabéns.

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    1. Olá, Eliana. Que bom ver você por aqui. Seus comentários são generosos e muito importantes para mim. Muito obrigadão!!!!

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  3. O senhor sempre me ajuda com os seus posts. Estou em desenvolvimento de treinamento para líderes e sombra de dúvidas irei usar como referência a sua metáfora. O senhor brilha ao escrever e consegue compartilhar conhecimento de uma forma leve e simples. Obrigada por ser presente!

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    1. Olá, “anônimo” Rsss… Coisas do Google… Se puder, mande seu nome, será um prazer conhecê-lo(a). Interessante, quando redigi a metáfora achei que os leitores não gostariam, mas está sendo um sucesso de público. Muito obrigado!

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  4. Dr. Mário, como funcionam seus programas sociais ? No Dia do Admistrador, nossa Associação de Alunos promove um evento SEM FINS LUCRATIVOS para os alunos da Universidade, como fazemos para ter a honra da sua participação?

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    1. Olá. Durante. Podemos conversar sobre sua demanda. Por favor, escreva para donadio.uniconsultores@gmail.com. Obrigado

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