O modelo de racionalidade
instrumental reduz o trabalhador a um recurso otimizável. A Inteligência
Artificial e a gestão por algoritmos exumam o Taylorismo digital disfarçado de
modernidade. A racionalidade substantiva,
fundamentada na dignidade humana e no trabalho como ferramenta de construção do
ser, exige que a Gestão de Recursos Humanos seja pilar de emancipação e justiça
social e não apenas lubrificante das rodas das engrenagens que produzem
resultados.
Relatório Intergaláctico: O Diagnóstico de Andrômeda
O conselho de cientistas da
Galáxia de Andrômeda observava os monitores de fluxo psicossocial do planeta
GEO-SEC-XXI com crescente preocupação. Os dados indicavam que a principal fonte
de propulsão da civilização, a energia denominada TRABALHO, estava
operando em níveis críticos de toxicidade. O recurso que gerava essa energia,
os HUMANOS, apresentava sinais de fadiga estrutural e perda de ignição
vital.
A análise técnica revelou uma
tensão pendular devastadora na gestão desses recursos. De um lado, os sistemas
de controle planetários estavam dominados pela Racionalidade Instrumental.
Sob essa lógica, os recursos humanos eram processados estritamente para a
adequação de meios aos fins: lucro e eficiência absoluta.
Os sensores de Andrômeda
detectaram que essa operação ignorava a Racionalidade Substantiva. O
conselho diagnosticou que o humano não é recurso inerte, mas sistema psicossocial
complexo que requer valores éticos e autorrealização para manter sua
integridade. Sem este sistema, a lógica de mercado agia como um solvente sobre a
coesão social do planeta.
O ponto de colapso foi
identificado naquilo que os cientistas chamaram de “coisificação”. Segundo os registros presentes nos arquivos de
Andrômeda, o recurso humano deveria se desenvolver no mundo através da energia
que ele mesmo produz. No entanto, a gestão de GEO-SEC-XXI transformara o
trabalho em mercadoria alienada de sua finalidade social. O resultado era uma
desvinculação completa entre o recurso e sua utilidade: o ser humano tornara-se
um custo, um desperdício a ser descartado.
Os conselheiros notaram um padrão
de interferência destrutiva: certas frequências
emitidas nos últimos anos bloqueavam qualquer tentativa de estabilização
humanista, classificando-as como ameaças à liberdade do sistema de trocas.
Sob esse manto, protocolos
avançados de estabilização — como os pesquisados pela psicologia social e do
trabalho — eram atacados e descartados como romantismo obsoleto. Em seu lugar,
o planeta reativava antigos motores de constrangimento mecanicistas do Século XIX, agora travestidos de
agilidade digital, falácia que apenas pregava a desimportância dos recursos
humanos.
O conselho encerrou a reunião com
uma advertência: sem a transição para uma gestão que valorize a substância
sobre o instrumento, o planeta GEO-SEC-XXI enfrentará um apagão civilizatório
irreversível.
Sim, pessoas são recursos; mas são essencialmente humanos
A gestão de recursos humanos vive uma tensão pendular. De um
lado, a Racionalidade Instrumental (Weber, Taylor, Ford) foca estritamente na adequação dos meios aos fins: o lucro e a
eficiência. Entretanto, a sociedade não pode ser regida apenas por essa lógica
de mercado (Guerreiro Ramos). Precisamos da Racionalidade
Substantiva, baseada em valores éticos e na autorrealização.
Presentemente, vivemos um retrocesso Neoliberal: Hayek e Mises
defendiam que qualquer intervenção humanista na economia é uma ameaça à
liberdade de mercado. Sob esse manto, propostas como a Comunicação Não-Violenta
(Rosenberg) ou as teorias de motivação de Herzberg e Mayo são atacadas como
românticas ou ultrapassadas, servindo de pretexto para o retorno ao Taylorismo
e Fordismo.
Segundo Hegel, o homem se realiza no mundo por meio do seu trabalho. Quando a gestão não reconhece a crítica de Lukács sobre a reificação — ou “coisificação” — , o trabalho deixa de ser emancipador e é mercadoria alienada desvinculada das necessidades do trabalhador. A Infocracia (Han, Byung-Chul) turbina o controle do “objeto quase-humano” no qual o poder não é exercido pela repressão, mas por sedução e pelos algoritmos, incentivando o individualismo “empreendedor” e competição “meritocrática”.
A essência humana do trabalho
O diagnóstico final de Andrômeda foi unânime: para evitar a
extinção da energia TRABALHO em GEO-SEC-XXI era preciso urgente e imediatamente
implantar três eixos de estabilização para restaurar a essencialidade do
recurso HUMANO:
- Essência: reconexão do
TRABALHO com a essência da eficiência;
- Dignidade: garantir
liberdade, equidade e segurança ao trabalhador;
- Significado: substituir os indicadores de eficiência mercadológica e financeira pelos que reconheçam o ser humano não como um meio, mas como a finalidade última da empresa.
O executivo de recursos humanos não pode ser um mero gestor de planilhas. O lucro é necessário e não é um mal; só não é um valor absoluto. Em um mundo mediado por algoritmos, a vantagem competitiva mais robusta e sustentável decorre do respeito absoluto à condição humana. O futuro da empresa não depende de quão rápido os processos são automatizados, mas de quão profundamente as relações produtivas são humanizadas.
Para saber mais
Comentários, críticas ou pedidos para esclarecer dúvidas
são muito bem-vindos. Responderei a todos com prazer. No rodapé do blog,
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Eficiência, mercado e rejeição ao humanismo
·
Gestão Científica (Taylorismo/Fordismo): embora pareça antigo, o pensamento de que o
trabalhador é apenas uma engrenagem (Homo Economicus) cujo único
incentivo é o salário e cuja única função é a produtividade máxima ainda é a
base dessa visão.
· Neoliberalismo Radical (Escola Austríaca e de Chicago): autores como Milton Friedman defendiam que “a única responsabilidade social da empresa é aumentar seus lucros”. Nesta ótica, direitos e bem-estar dos trabalhadores são vistos como custos ou distorções de mercado que diminuem a competitividade.
Humanismo, racionalidade substantiva, ética
·
GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das
organizações: uma reconstrução da riqueza das nações. Rio de Janeiro:
Editora da FGV, 1981. (Obra fundamental para a distinção entre racionalidade
instrumental e substantiva no Brasil).
·
HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e
a crise da democracia. Tradução de Gabriel Salvi Philipson. Petrópolis:
Vozes, 2022
·
HERZBERG, Frederick. A motivação para o
trabalho. São Paulo: Atlas, 1997.
·
MASLOW, Abraham H. Introdução à psicologia do
ser. Rio de Janeiro: Eldorado, 1962.
·
MAYO, Elton. Os problemas humanos de uma
civilização industrial. São Paulo: Atlas, 1959.
·
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Trabalho
Decente. Genebra: OIT, 1999. Disponível em: [site oficial da OIT].
Consulte também os blogs
·
Gestão de RH e a tirania dos algoritmos
Os gestores de RH modernos orgulham-se de suas
ferramentas digitais e não se envergonham de esquecer que seu foco deveria ser
pessoas, não estatísticas. Implantam redes sociais corporativas abrangentes,
canais de slack ininterruptos e sistemas de Feedback 360
graus em tempo real. Aproximam-se de um sistema de vigilância digital e
invasiva no qual a liderança é desumanizada pelos algoritmos.
https://mariodonadio.blogspot.com/2026/03/gestao-de-rh-e-tirania-dos-algoritmos.html
·
Ondas sócio-históricas e a psicologia
organizacional e do trabalho
As estratégias organizacionais são definidas para garantir a
maximização da acumulação de capital segundo as empresas sejam mais ou menos
competitivas no mercado sujeito aos processos sócio-históricos. A área de
recursos humanos é a operadora das relações com os empregados. A psicologia
organizacional, desde os anos cinquenta, é protagonista na gestão das
subjetividades constituídas e constituintes.
https://mariodonadio.blogspot.com/2024/06/ondas-socio-historicas-e-psicologia.html
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