Baseada nas
ideias Jacques Lacan, convida a compreender a comunicação e a questionar
o papel que ela realmente desempenha. Mais do que informar, ela tem uma função mais
insidiosa: a de instrumentar os aparelhos ideológicos da sociedade espelhados nas empresas para a
captura da alma dos empregados para gozarem com a obediência.
Executivos de RH, líderes e gestores de alto escalão vivem
um dilema cotidiano: como garantir que a comunicação interna seja eficaz,
alinhando equipes, transmitindo a cultura da empresa e, claro, motivando o
engajamento? A resposta vem embalada em manuais e cartilhas que prometem
transparência total, mensagens claras e um alinhamento perfeito.
As estratégias para o assim chamado desenvolvimento da
cultura e construção de um clima unificado e harmonioso, onde não haveria
espaço para desavenças, escondem as fissuras e os conflitos que são inerentes a
qualquer grupo humano. A comunicação torna-se ferramenta para impor esta falsa
coesão. Para Lacan, o empregado não obedece apenas por medo ou dever moral, mas
porque a obediência lhe oferece uma âncora libidinal. Ao seguir
cegamente uma ordem, a pessoa livra-se da angústia de lidar com o próprio
desejo.
O que se tenta esconder é o real, aquilo que é
impossível de ser totalmente controlado ou simbolizado. Pense em uma grande
reestruturação ou uma crise interna; a comunicação oficial tenta traduzir esses
eventos em mensagens polidas e positivas. Lacan, relendo a dialética hegeliana, observa
que o escravo encontra um gozo na sua submissão, pois esta lhe confere um lugar
privilegiado no mundo do opressor, e se sente protegido do vazio de sua
existência.
O mestre, o colaborador e a produção do gozo obediente
O que a análise lacaniana nos revela é que a comunicação
corporativa se encaixa no que ele chamou de Discurso do Mestre.
Os aparelhos ideológicos, liderados pelo marketing interno e operados pelas
chefias, emitem coloridas mensagens de cooptação da visão, missão, políticas,
incentivo aos objetivos e metas organizacionais; as avaliações de desempenho
valorizam quem as incorpora como se fossem suas ou, no jargão empresarial: vestem
a camisa...
A serviço dessa ordem, estão os manuais, as métricas e os
procedimentos, formando um saber que serve ao poder. O colaborador — como a comunicação corporativa prefere denominar o empregado — é o elo frágil
nessa cadeia. Sabe que para sobreviver precisa se conformar ao Discurso do
Mestre, mesmo que sua vontade interna, sua insegurança ou sua angústia clame
pelo contrário.
A intenção declarada seria a clarificação do significado; entretanto a mensagem
nunca pertence apenas a quem a emite, seja o CEO ou o departamento de RH. Quando
é liberada, ela se separa de seu autor e entra no universo de cada pessoa, onde
será interpretada filtrada pelas experiências,
traumas e desejos de cada um.
O que se prega nos seminários motivacionais para a eficácia comunicacional
é, na verdade, uma estratégia de captura da mente, um convite à identificação com a
marca, e não uma transmissão de conhecimento. Voltando para Lacan: o engajamento é uma forma de gozo, uma
satisfação paradoxal extraída da própria obediência.
O controle do significado
As campanhas de empresa-família, os prêmios de melhor
lugar para trabalhar são mecanismos
para capturar o desejo do empregado. Não visam informar, mas sim extrair do empregado
a última gota de sua vontade, fazendo com que ele ame sua própria servidão.
Diferente do senso comum, onde as palavras servem para
rotular coisas ou ideias pré-existentes, Lacan afirma que o significante
precede o significado. As palavras — feedback, cultura, comunicação, engajamento,
liderança... — não têm um significado concreto, como definidas nos dicionários,
elas valem pelo seu significante, como são interiorizadas pelo inconsciente dos receptores.
A comunicação organizacional é uma construção contínua de
significantes. Seminários de pseudo integração, palestras de coaches motivacionais
e livrinhos de autoajuda precisam ter a essência de sua doutrinação corrigida desde
o vocabulário:
·
Feedback: não é uma troca transparente,
mas um ritual carregado de angústia onde o empregado se vê objetificado pelas
métricas da organização.
·
Cultura Organizacional é uma tentativa de
criar um universo simbólico totalizante que esconde a realidade do conflito entre
os objetivos organizacionais e desejos dos empregados.
·
Engajamento, vestir a camisa: é uma forma
de gozo, uma estratégia da empresa para que o empregado, aceite e ache normal
sua própria servidão.
Para saber mais
· A voz da empresa, comunicação interna ou dominação ? Uma postagem anterior https://mariodonadio.blogspot.com/2025/09/ com cópia no Linkedin https://lnkd.in/dmZBMa_s teve grande repercussão entre meus alunos de pós-graduação no Mackenzie e clientes da UniConsultores, inclusive de outros países. Recebeu muitos elogios e uma crítica: faltava trazer Lacan. Prometi pesquisar mais e escrever outro artigo. Aqui está! Sugiro que leiam também o texto anterior, é importante para se aprofundar no tema. Leia este texto também no Linkedin:
·
Psicodinâmica do Trabalho e Gestão: Uma Perspectiva Lacaniana: Diversos títulos e autores. Vale a pena consultar teses e dissertações de grupos
de pesquisa da USP ou UFRGS. Há muitas
referências sobre como a Comunicação Organizacional atua como um Discurso do
Mestre e deixa de ser diálogo e é ferramenta que sustenta o gozo da
obediência,
·
O Mal-estar na Organização: Christian
Dunker e outros (Org. por S. Paulon e L. G. L. de Oliveira). Editora: Artmed /
Escuta.
·
Organizações e Sociedade, Temas
Críticos em Administração: Rafael Alcadipani. Editora: Thomson Learning /
Cengage.

Muito obrigado. É isso mesmo. Vou comentar, gostaria de ter o vigor do seu texto. '
ResponderExcluirPrezado @mariodonadio, falar em comunicação "interna" é delírio persecutório e totalitário de quem se acredita onipotente.
Comunicação é como chuva: cai dos dois lados do muro. O muro, no caso, são as fronteiras da empresa.
Uma Braskem pode falar o que quiser sobre Maceió; a Vale pode vender as maravilhas dos acordos sobre Mariana e Brumadinho embrulhadas em papel dourado e prometer bônus a quem se declarar favorável no LinkedIn.
Só tem uma questão: as pessoas recebem ZAP e olham redes sociais fora do controle o dia todo. Há, ainda quem ainda assista tv aberta e cabo, vídeos no YouTube e, pasme!, leiam jornais.
Dá para falar em "comunicação interna"? Será crível aquela comunicação edulcorada e perfumada que sempre apresenta o lado da empresa, com um grave vício de origem: é dirigida e paga pela empresa.
O Veríssimo até já matou a doce velhinha de Taubaté, aquela que acreditava na comunicação do governo.
Será que as empresas ainda acham que seus empregados são legítimos herdeiros da doce velhinha?
p.s. fiz muito house organ, intranet etc. As pessoas só vêm pedir mais exemplares ou links quando sai a foto delas...